Como em outros momentos de sua obra, a lição de Maquiavel nesse trecho é magistral. Ele descreve a situação do príncipe - ou líder - que conquista o poder aproveitando inteligentemente a oportunidade surgida: "Sem a oportunidade, os poderes do líder (sua habilidade, força, coragem, ousadia, visão) teriam sido desperdiçados. Sem aqueles poderes, a oportunidade teria vindo em vão". Maquiavel tem em mente as figuras históricas de Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu, como exemplos de profetas armados que tiveram sucesso em conquistar o poder por seus próprios méritos e não pela sorte ou pelo acaso. O modelo de profeta desarmado para Maquiavel é o Frei Girolamo de Savonarola, que com seus discursos apocalípticos em Florença alcançara o favor popular e o poder político, perdendo-os logo em seguida por não haver criado as condições para mantê-los em situações adversas.

O frei Girolamo de Savonarola, contemporâneo de Maquiavel em Florença, serviu-lhe como paradigma de profeta desarmado, por haver conquistado o poder e não saber mantê-lo em tempos difíceis
Neste parágrafo, o estrategista italiano delimita o tema de sua análise: um príncipe que, chegado ao poder, se propõe a realizar grandes mudanças e reformas. Desde logo ele alerta que se trata de matéria de êxito duvidoso e perigosa para o governante. A seguir, apresenta as razões do risco, realizando uma verdadeira incursão - bastante sensível e perceptiva - pela psicologia dos indivíduos.
O alerta é certeiro: os que têm interesses estabelecidos e consolidados no regime anterior são inimigos das mudanças - e os potenciais favorecidos pela nova ordem são seus tímidos defensores porque temem o poder dos adversários e têm natural incredulidade e falta de disposição para apostar num projeto, enquanto ele não se materializa.

Página de uma das primeiras edições de O Príncipe
O resultado desse impasse vai depender da capacidade de o líder estabelecer sua vontade por suas próprias forças. Por esta razão ele é caracterizado como um profeta armado. Na ausência do necessário respaldo popular para suas reformas, ele deve fazer valer sua força para dobrar os adversários, ganhar tempo para mostrar aos tímidos defensores que a mudança vai efetivamente ser implantada, e manter-se no poder. Se, ao contrário, não contar com tais recursos próprios e depender da persuasão racional, não convencerá aqueles que têm a perder com as mudanças, nem os que as apóiam na condição de que sejam implantadas sem o seu envolvimento.







