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Tempo de leitura: 5 min 0 seg    Publicado em: 01/Setembro
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"Todos os profetas armados triunfaram e todos os desarmados foram destruídos"

Uma das passagens mais notórias de O Príncipe, de Maquiavel, a frase sintetiza o 6º capítulo do livro - Dos principados novos que se conquistam com as armas próprias e virtuosamente - e revelou-se uma verdade política ao longo dos séculos

Como em outros momentos de sua obra, a lição de Maquiavel nesse trecho é magistral. Ele descreve a situação do príncipe - ou líder - que conquista o poder aproveitando inteligentemente a oportunidade surgida: "Sem a oportunidade, os poderes do líder (sua habilidade, força, coragem, ousadia, visão) teriam sido desperdiçados. Sem aqueles poderes, a oportunidade teria vindo em vão". Maquiavel tem em mente as figuras históricas de Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu, como exemplos de profetas armados que tiveram sucesso em conquistar o poder por seus próprios méritos e não pela sorte ou pelo acaso. O modelo de profeta desarmado para Maquiavel é o Frei Girolamo de Savonarola, que com seus discursos apocalípticos em Florença alcançara o favor popular e o poder político, perdendo-os logo em seguida por não haver criado as condições para mantê-los em situações adversas.

"Deve-se ter em conta que não há coisa mais difícil de realizar, nem de êxito mais duvidoso, nem de maior perigo para conduzir, do que o estabelecimento de grandes inovações."


O frei Girolamo de Savonarola, contemporâneo de Maquiavel em Florença, serviu-lhe como paradigma de profeta desarmado, por haver conquistado o poder e não saber mantê-lo em tempos difíceis

Neste parágrafo, o estrategista italiano delimita o tema de sua análise: um príncipe que, chegado ao poder, se propõe a realizar grandes mudanças e reformas. Desde logo ele alerta que se trata de matéria de êxito duvidoso e perigosa para o governante. A seguir, apresenta as razões do risco, realizando uma verdadeira incursão - bastante sensível e perceptiva - pela psicologia dos indivíduos.

"Porque o legislador tem por inimigos todos quantos viviam bem no regime anterior, e só encontra tímidos defensores entre os favorecidos com a nova ordem. Timidez produzida em parte por medo dos adversários e em parte pela natural incredulidade dos homens, que não se convencem de que uma coisa nova é boa, até que a experiência o comprove."

O alerta é certeiro: os que têm interesses estabelecidos e consolidados no regime anterior são inimigos das mudanças - e os potenciais favorecidos pela nova ordem são seus tímidos defensores porque temem o poder dos adversários e têm natural incredulidade e falta de disposição para apostar num projeto, enquanto ele não se materializa.

"Disto procede que os adversários das inovações se organizam para combatê-las na ocasião propícia, e os que a defendem o fazem frouxamente; de sorte que uns e outros põem em perigo o novo regime."


Página de uma das primeiras edições de O Príncipe
Em conseqüência, as reformas nascem fracas, já que apresentam adversários fortes e conscientes de seus interesses - e aliados que as defendem sem firmeza. A conquista do poder, portanto, não se consuma, permanece em suspenso. E o novo regime, instável e contestado, depende de outras medidas para se consolidar.

"Para tratar esta questão a fundo, é preciso examinar se os reformadores o são por iniciativa própria ou se têm quem os apóie; isto é, se para executá-las necessitam apelar para a persuasão ou podem empregar a força. Porque no primeiro caso fracassarão sempre. Entretanto, se forem independentes e puderem apelar para a força, dificilmente fracassarão."

O resultado desse impasse vai depender da capacidade de o líder estabelecer sua vontade por suas próprias forças. Por esta razão ele é caracterizado como um profeta armado. Na ausência do necessário respaldo popular para suas reformas, ele deve fazer valer sua força para dobrar os adversários, ganhar tempo para mostrar aos tímidos defensores que a mudança vai efetivamente ser implantada, e manter-se no poder. Se, ao contrário, não contar com tais recursos próprios e depender da persuasão racional, não convencerá aqueles que têm a perder com as mudanças, nem os que as apóiam na condição de que sejam implantadas sem o seu envolvimento.

"Disto procede que todos os profetas armados tenham triunfado e todos os profetas desarmados foram destruídos."

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Editor Responsável: Francisco Ferraz