COMPARTILHAR
Capa > Variedades > Arte e política

Carta de George Orwell sobre porque escreveu “1984”

Francisco Ferraz
Publicado em: 15/12/2015

Em 1944, antes de terminar a Segunda Guerra Mundial, 3 anos antes de escrever “1984” e 5 anos antes de publica-lo, Orwell escreveu uma carta detalhando a tese do seu livro. A carta advertia para o crescimento de estados policiais e totalitários. 

Para Noel Willmett

18 de Maio de 1944

10a Mortimer Crescent NW 6


Caro Sr. Willmett,

Muito obrigado por sua carta. Você pergunta se o totalitarismo, o culto a um líder, etc, estão realmente em progressão e menciona o fato de que eles não estão aparentemente crescendo neste país e nem nos EUA.

Devo dizer que acredito, ou temo, que considerando o mundo como um todo, essas coisas estão em crescimento. Hitler, sem dúvida, irá desaparecer em breve, mas apenas à custa do fortalecimento de (a) Stalin, (b) os milionários anglo-americanos e (c) todos os tipos de pequenos Führers do tipo de De Gaulle.

Todos os movimentos nacionais em todos os lugares, até mesmo aqueles que se originam da resistência à dominação alemã, parecem assumir formas não democráticas em torno de alguns Führers sobre-humanos (Hitler, Stalin, Salazar, Franco, Gandhi e De Valera são exemplos variados) e a adotar a teoria de que o fim justifica os meios.

Ignorância é força./ Liberdade é escravidão. /Guerra é paz

Em todas as partes, o movimento do mundo parece ser na direção das economias centralizadas que podem ser feitas para “trabalhar” em um sentido econômico, mas que não são democraticamente organizadas e que tendem a estabelecer um sistema de castas.

Com isso vem os horrores do nacionalismo emotivo e uma tendência para não acreditar na existência de uma verdade objetiva, porque todos os fatos devem se encaixar nas palavras e profecias infalíveis de algum Führer.

A história, de certa forma, já deixou de existir. Não existe tal coisa como uma história dos nossos tempos que poderia ser universalmente aceita, e as ciências exatas estão ameaçadas de extinção no momento em que se tenha uma necessidade de natureza militar para colocar as pessoas de volta em seus lugares.

Hitler pode dizer que os judeus começaram a guerra, e que se ele sobreviver, isso se tornará a história oficial. Ele não pode dizer que dois e dois são cinco, porque, para os fins, digamos, da balística, tem que ser quatro. Mas se o tipo de mundo que eu temo que chegue – um mundo de dois ou três grandes superestados que são incapazes de conquistar um ao outro – dois e dois podem se tornar cinco se o Führer desejar. Isso, tanto quanto posso ver, é o rumo para o qual nos movemos efetivamente – apesar de, é claro, o processo possa ser reversível.

Com relação à imunidade comparativa da Grã-Bretanha e dos EUA, o que quer que os pacifistas possam dizer, nós não nos tornamos totalitários ainda e isso é um sintoma muito esperançoso. Acredito profundamente – como expliquei em meu livro “O leão e o unicórnio” – no povo inglês e em sua capacidade de centralizar sua economia sem destruir a liberdade ao fazê-lo. Mas é preciso lembrar que a Grã-Bretanha e os EUA não foram realmente testados, não conheceram nem a derrota nem um sofrimento profundo, assim como há alguns sintomas ruins para equilibrar os bons.

Para começar, há uma indiferença geral em relação à decadência da democracia. Você sabia, por exemplo, que agora ninguém na Inglaterra com menos de 26 anos tem direito ao voto e que até onde se pode ver, a grande maioria de pessoas nessa idade não dá a mínima para isso?

Em segundo lugar, há também o fato de que os intelectuais são mais totalitários nas suas perspectivas do que as pessoas comuns. No geral, a intelligentsia inglesa se opôs a Hitler, mas ao preço de aceitar Stalin. A maioria deles está perfeitamente pronta para métodos ditatoriais, polícia secreta, falsificação sistemática da história, etc, desde que eles achem que é no “nosso” lado.

Na verdade, a afirmação de que não temos um movimento fascista na Inglaterra, em grande parte, significa que o jovem neste momento procura seu Führer em outro lugar. Não se pode ter certeza de que isso não vai mudar, nem se pode ter certeza de que as pessoas comuns não vão pensar daqui a dez anos como os intelectuais de agora.

Espero que não, eu mesmo confiaria que não, mas se assim for, será à custa de luta. Se alguém simplesmente proclama que tudo que acontece é para o melhor e não aponta para os sintomas sinistros, este alguém está apenas ajudando a trazer o totalitarismo para mais perto.

Você também pergunta: se eu acho que a tendência mundial é na direção do fascismo, por que eu apoiaria a guerra? É uma escolha entre males – imagino que quase todas as guerras sejam assim. Eu sei o suficiente sobre imperialismo britânico para não gostar, mas gostaria de apoiá-lo contra o nazismo ou o imperialismo japonês, como o mal menor.

Da mesma forma que eu apoiaria a URSS contra a Alemanha, porque acho que a URSS não pode escapar completamente de seu passado e mantém bastante as ideias originais da Revolução para torná-la um fenômeno mais esperançoso do que a Alemanha nazista. Eu acho – e tenho pensado nisso desde o início da guerra, em 1936 ou por aí -  que a nossa causa é a melhor, mas temos que continuar a fazê-la a melhor, o que envolve críticas constantes.

Atenciosamente,

George Orwell


COMPARTILHAR

Área do usuário:

E-mail

Senha

> Esqueci minha senha

> Quero me cadastrar

Curta nossa página no Facebook Siga-nos

Opinião do leitor

Como assessora de político, tenho obtido deste site informações interessantes para o meu trabalho. No momento, estou lendo do Francisco Ferraz " Manual Completo de Campanha Eleitoral". Já fiz dele o meu livro de cabeceira. Parabéns e sucesso.

Sandra Suely Reuter
Teixeira de Freitas - BA

Leia mais >>