Futebol e política no Brasil.

Francisco Ferraz
Publicado em: 26/08/2016

Futebol e políticaSerá que a política e governo no Brasil não teriam alguma coisa a aprender com o futebol? Afinal este é um esporte em que somos considerados os melhores do mundo.

É inegável que há evidentes paralelismos entre o futebol e a política.

Ambas são atividades sociais e coletivas; os que assistem aos jogos podem ser equiparados aos eleitores; clubes podem ser encarados como partidos políticos; seus associados e torcedores aos militantes e simpatizantes do partido; técnico e direção podem ser assemelhados aos líderes partidários e governantes; as regras do futebol corresponderiam às leis do país e à Constituição; o árbitro em campo seria o juiz singular decidindo sobre matéria de fato, sujeita a um rito processual de urgência;  a conquista do campeonato à conquista do poder; a mídia do futebol equivale em importância à mídia que cobre a política; dela fazem parte analistas, cronistas, repórteres como ocorre também na política; conflitos sobre a aplicação da lei, em ambos os casos são sujeitos a tribunais especializados.

O curioso é que o futebol, exatamente aquela atividade onde somos inequivocamente os melhores do mundo, o esporte mais valorizado pelos brasileiros e motivo de orgulho nacional, está todo ele apoiado no que poderíamos chamar de princípios da livre iniciativa, que não são igualmente avaliados de forma positiva na atividade política, dominada pelo Estado.

No futebol o princípio da livre competição é soberano e indiscutível; suas hierarquias são decididas em função do mérito; a disputa está sujeita a regras objetivas e exclusivamente processualísticas; remuneração e avaliação dependem do desempenho; as partes gozam de plena liberdade  para contratar e distratar; há uma total ausência de legitimidade para os interesses corporativos ou para favorecimentos e nepotismo, que possam interferir com o melhor desempenho do clube na competição.

Mais ainda. Não se verifica e nem seria admitida, pelos brasileiros nenhuma intervenção do estado no futebol.

Houve pelo menos dois precedentes que contrariaram essas características do futebol: a chamada “democracia corintiana” de Sócrates e, no outro extremo, a interferência do presidente Medici na convocação de Dario para a seleção de 1970. 

É significativo que, nenhum dos dois prosperou e conseguiu se constituir em exemplos para novos episódios análogos. Quais então as características essenciais do futebol que são iguais às características da atividade política e, ao mesmo tempo diferentes?

Em primeiro lugar o princípio da competição.Há umapermanente competição entre jogadores; entre clubes; entre dirigentes; entre estados; entre países.

Esta competição está sujeita a regras explícitas, plenamente conhecidas por jogadores, dirigentes e torcedores. É ela que define o sucesso na atividade. O torcedor premia o melhor com seu entusiasmo e apoio; o clube premia o melhor com salário; a mídia premia o melhor com prestígio e fama; o país premia o melhor com a convocação para a seleção.

Assim, a ascensão do jogador na sua carreira como seu salário resultam do mérito. Isto é provar que é o melhor. Não há compadrismo, nem caridade, nem quotas, nem nepotismo.

De nada vale a melhor intenção de ganhar o campeonato, de nada valem promessas que não se realizam no campo. O critério do desempenho e da valorização pelo mérito é absoluto e igualmente aceito por todos os participantes.

O que torna o futebol possível, entretanto, é a existência de regras estáveis, aceitas e respeitadas por todos os participantes do esporte. O jogo tem que ser jogado dentro das regras. O juiz é a autoridade final e decisiva na interpretação das jogadas dentro das regras do jogo.

São regras que mudam muito raramente. Contrariamente ao que se assiste na política, ninguém se atreve a cada ano, depois do campeonato tentar impor uma reforma das leis do futebol, com a mesma facilidade que se propõem reformas políticas e da lei eleitoral.

Jogadores, árbitros, treinadores, dirigentes, torcedores aprenderam as regras e com elas estão habituados. No futebol, ao contrário da política, ninguém pensaria que é admissível que o vencedor do campeonato tenha, por essa condição, o poder para decidir sobre onde se joga, quem será o árbitro, qual o orçamento de cada clube, quem nomear para os Tribunais Esportivos, qual o espaço de mídia que os clubes deverão ter etc.

As regras constituem uma tessitura normativa muito delicada. Mexer numa implica em alterar outras e arrisca provocar um desequilíbrio no sistema geral dentro do qual o jogo é jogado. Oxalá este sentimento de acatamento das regras também predominasse na política.

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Edison Correa da Silva
Florianópolis - SC

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