Sinal de perigo à frente. Cuidado com a política do ódio.

Francisco Ferraz
Publicado em: 27/01/2014

Política do ódioHá um aspecto preocupante na política que hoje se pratica no país o qual, sempre que se manifesta, antecipa problemas bem mais graves pela frente. Refiro-me a uma crescente radicalização entre adversários políticos que já começa a transbordar para sentimentos de ódio.

Este traço comportamental aparece com maior nitidez e frequência nas redes sociais e em blogs, mas também é perceptível nas discussões políticas em situações sociais e familiares.

Em primeiro lugar é importante não confundir adversário com inimigo. É entre adversários que o jogo político acontece e a disputa por espaço político, prestígio, poder se dá. Adversários, entretanto são conjunturais, mudam com o tempo e as circunstâncias. O adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã.

         A disputa entre adversários pode e costuma ser dura. Entre adversários, porém, não existe ódio. O que distingue o conflito entre adversários e entre inimigos é a presença do ódio como fator dominante, como motivação principal.

O ódio é um sentimento que lança suas raízes no plano mais íntimo da individualidade das pessoas. Seu objetivo real, muitas vezes não reconhecido, é a eliminação completa do inimigo (eliminação seja no campo da política, da vida social, econômica, profissional, e no limite, o próprio desejo da morte física).

As instituições democráticas são as formas mais desenvolvidas de convívio político, exatamente porque tornam o conflito civilizado e contido dentro de limites legalmente prescritos. O que são as eleições  senão um conflito limitado entre adversários, com regras claras e explícitas para definir quem vence?

Os sinais de perigo mencionados dizem respeito à crescente radicalização entre governo e oposição, agravada pela antecipação  da campanha eleitoral. Esse padrão de conflito político, entre outras consequências, resulta em um crescente afastamento entre governo e oposição nas atividades cotidianas de governo.

Apoiado em sua ampla maioria no legislativo, o governo por vezes deixa claro que despreza a oposição e que não conta com ela para ajuda-lo a governar o país.

Sem necessitar dos seus votos para aprovar matérias de seu interesse, o governo, quando se intensificam os decibéis do conflito, não hesita em demonizar a oposição, caracterizando-a como defensora de interesses antinacionais.

 

A continuar esse padrão de relações governo/oposição, tende-se a se instaurar um conflito do tipo “soma zero” – o mais radical dos conflitos - no qual o que um ganha é exatamente o que o outro perde, tornando a vitória um imperativo a ser alcançado a qualquer preço e a derrota um desastre a ser evitado a qualquer custo.

Conflitos dessa natureza são típicos de esportes como o boxe e o xadrez, o que explica a óbvia violência do primeiro e a silenciosa, mas extrema hostilidade do segundo.

Nas democracias maduras e estáveis, o eventual apoio da oposição a uma medida governamental é sempre desejável,  por ser um poderoso reforço de legitimidade, muito mais expressivo interna e externamente do que o apoio interessado e previsível de sua base política.

Encarar a oposição com respeito e sempre que possível buscar o seu apoio contribui poderosamente para a civilidade das relações políticas. De outra parte, jogá-la contra a opinião pública resulta sempre em deformar a prática da democracia, transformando adversários em inimigos.

 Não se entenda que esse padrão de confronto é de exclusiva responsabilidade do governo. Por ocupar o poder e dispor dos recursos públicos, entretanto, não se pode deixar de lhe atribuir maior responsabilidade na instauração e preservação da civilidade democrática, no respeito ao republicanismo, no exemplo de respeito à lei e à constituição e na instauração de um ambiente político de conflito moderado, condição indispensável ao funcionamento de uma democracia.

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Opinião do leitor

Bravíssimo pelo artigo de nosso avô João Neves da Fontoura!!! Gostaria de agradecer pessoalmente.

João Neves Fontoura Neto
Rio de Janeiro - RJ

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